Como os cães se tornaram os melhores amigos das pessoas?

Com frequência lemos em algum lugar ou ouvimos alguém dizer que “o cachorro é o melhor amigo do ser humano”. Mas como eles se tornaram parceiros tão fiéis? Quando essa relação de companheirismo e confiança começou? A ciência concorda que os cães são descendentes dos lobos, evoluindo para os primeiros animais domesticados pelos humanos. Mas é aí que acaba o consenso.

Ainda existe um grande mistério envolvendo o início de tudo e pesquisadores buscam entender como esses animais foram mudados devido à ação humana, seja por meio da genética ou da arqueologia.

O início de uma parceria milenar

No meio científico, a história sobre como os cães foram domesticados a partir dos lobos é um tema complexo que costuma gerar muitas discussões. Os pesquisadores acreditam que esses animais começaram a se mover pelo mundo há cerca de 20 mil anos, provavelmente, já com seus companheiros humanos.

Ciência busca entender como tudo começouCiência busca entender como tudo começou.

Nos últimos anos, cientistas têm se baseado em estudos genéticos e achados arqueológicos para identificarem indícios sobre como os cães e os seres humanos passaram a viver juntos. Algumas pesquisas recentes apontam que isso deve ter ocorrido entre 14 mil e 29 mil anos atrás.

Os homens que viveram nas cavernas na última era do gelo foram os responsáveis por começar a amizade entre as espécies. Com a queda significativa na temperatura, os humanos desse período começaram a alimentar lobos que se aproximavam dos assentamentos com sobras de carne.

Contudo, é interessante observar que os lobos eram uma espécie competitiva para os humanos da Eurásia, visto que ambos procuravam por presas parecidas, a exemplo dos veados, para sua sobrevivência.

Necessidade vs. oferta

Como lobos e homens tinham alvos semelhantes e competiam por eles, alguns pesquisadores começaram a se questionar por qual motivo os humanos antigos simplesmente não acabaram com os concorrentes, pois já possuíam as ferramentas e habilidades necessárias para isso.

De acordo com cientistas finlandeses, a resposta para essa questão e outras mais complexas está relacionada ao fator necessidade vs. oferta. Considerando as necessidades calóricas, os humanos que já viviam como coletores e caçadores, muitas vezes tinham excedente de carne. E, ao contrário dos lobos, não precisavam devorar um cervo inteiro. Ao alimentar os lobos selvagens com a carne que sobrava, o homem começou a modificar esses animais dando início à evolução dos cães.

É isso que pensa Marina Lahtinen, arqueóloga, química e cientista sênior da Finnish Food Authority (Autoridade Alimentar Finlandesa). A pesquisadora recolheu amostras de animais que tanto os seres humanos quantos os lobos teriam atacado, como veados, cavalos e alces. Depois, ela e sua equipe analisaram o conteúdo energético da comida e compararam com a ingestão média que um humano da última idade do gelo necessitaria.

O resultado dos estudos da especialista finlandesa mostrou que o conteúdo de energia ultrapassava a quantidade necessária para ingestão do homem. Sendo assim, o excesso de comida deve ter sido compartilhado com os lobos.

Nesse processo de milhares de anos, o ponto onde os seres humanos perceberam que esses lobos que se aproximavam mais deles poderiam ser usados como excelentes companheiros nas viagens de caça, é tido como o primeiro passo na domesticação.

A genética das mudanças

Os estudos genéticos têm um papel fundamental nas pesquisas que buscam entender como os seres humanos mudaram e promoveram alterações evolutivas nos lobos. Uma pesquisa publicada na revista BMC Biology, aponta que os traços comportamentais desses animais foram a primeira coisa a ser modificada.

Por exemplo, comportamentos com menos agressividade e redução do medo dos seres humanos estavam entre as primeiras alterações. As mudanças nas características físicas, como as orelhas caídas e mandíbulas menores, vierem muito tempo depois.

Genética pode explicar mudanças comportamentaisGenética pode explicar mudanças comportamentais.

Já o pesquisador Jeffrey Kidd e sua equipe da Universidade de Michigan conseguiram identificar 178 genes que podem estar relacionados à domesticação dos cães. O cientista conduziu um estudo de genoma completo envolvendo 43 cães de aldeia e 10 lobos.

Para isso, os pesquisadores compararam o DNA de lobos com restos mortais de cães enterrados há 5 mil anos e cães de aldeia, esses últimos são animais que vagam procurando comida próximo dos humanos e se acasalam livremente. Segundo Kidd, os cães de aldeia foram usados na pesquisa porque seus genes não foram alterados pelos seres humanos nos últimos 300 anos, ao contrário dos chamados cães de raça.

O fato é que não importa muito quais explicações a ciência já encontrou e, provavelmente, ainda encontrará para a amizade fiel entre o cão e o homem. Esse animal de quatro patas sempre teve um papel fundamental na história humana, seja na antiguidade ou na história mais recente com participação em guerras, resgates e proteção de seus companheiros de duas pernas.

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