Ditadura militar: confira 8 casos de censura em novelas

Há alguns dias, publicamos aqui no Mega Curioso um texto sobre os direitos que você não teria na ditadura militar e mencionamos o direito de ouvir (ou produzir) as músicas, livros e filmes que você quiser. Isso porque, nesse período, o governo exigia aprovação prévia todas as obras que iam a público — e muitas eram censuradas, por “subversão”, críticas ao governo ou atentar contra a moral e os bons costumes.

Sendo as novelas um produto cultural que chegava a milhões de lares todas as noites, era claro que o governo mantinha marcação cerrada com os autores e as redes de TV. Praticamente todas as novelas da época tinham capítulos e trechos censurados, porém, a seguir, nós mostramos 8 casos emblemáticos disso. 

1. Roque Santeiro (1975)

“Roque Santeiro”, que chegou recentemente ao GloboPlay, foi um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira quando finalmente pode estrear, em 1985. Acontece que, uma década antes, a novela estava pronta, com 50 capítulos escritos, 30 gravados e 10 já editados. Porém, na noite da estreia, o governo proibiu a novela de ir ao ar.

A justificativa, lida por Cid Moreira no Jornal Nacional minutos antes da estreia que não pode acontecer, dizia que “a novela contém ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja”. Porém a verdade é que a ditadura descobriu que o autor Dias Gomes estava adaptando sua peça que havia sido censurada 10 anos antes, “O Berço do Herói”, para a televisão. 

Ele mudou bastante coisa, para que os censores não reconhecessem a obra, mas confessou a artimanha a um amigo, por telefone. O problema é que a ligação estava grampeada e os censores proibiram a novela no dia da estreia como vingança. Uma reprise entrou no ar e, em menos de três meses, Janete Clair, esposa de Dias Gomes, criou outra novela com o mesmo elenco, “Pecado Capital”. 

2. Selva de Pedra (1972)

Na noite de 27 de agosto de 1975, a Globo não tinha novela das oito para exibir, com a proibição de Roque Santeiro. Então, colocou no ar uma reprise de Selva de Pedra, que havia feito grande sucesso três anos antes. A novela era de Janete Clair e também sofreu com a censura. 

Todos os capítulos sofriam algumas intervenções, mas de uma vez só a autora precisou rasgar 20 capítulos e mudar os rumos da história. Isso porque Cristiano, o mocinho, iria se casar com a vilã, Fernanda, pensando que sua amada Simone estava morta. Contudo, o público (e os censores) sabiam que ela estava viva. A censura não admitia a “bigamia” em plena novela das oito. 

A cena do casamento continuou existindo, mas Cristiano fugiu do altar e não se casou, de fato, deixando Fernanda louca e dando outro rumo para a história. A segunda versão de Selva de Pedra, feita após a morte de Janete, em 1986, manteve o caminho. Porém, teve outro problema com a censura: uma possível relação lésbica de Fernanda e a personagem Cínthia não foi permitida. 

3. Fogo sobre Terra (1974)

Janete Clair talvez seja a autora de novelas mais habilidosa que tivemos no Brasil, mas ela também sofreu muito com a censura em todas as suas criações. “Fogo sobre Terra”, em especial, era bastante visada por sua trama principal: uma cidadezinha fictícia seria inundada para a construção de uma hidrelétrica e o mocinho, Pedro, tentava impedir.

Pois a ditadura estava construindo a Usina de Itaipu e achou que Janete Clair estava criticando sua obra. Além disso, Pedro era um personagem “subversivo” com sua luta para impedir a construção da hidrelétrica. Janete pensou em dar uma morte heróica para ele, no final de “Fogo sobre Terra”, mas a censura não queria que o subversivo se tornasse um mártir. Eles exigiram que Pedro virasse um “cidadão de bem”.

4. Escalada (1975)

Essa foi a última novela das oito em preto-e-branco da Globo: “Roque Santeiro”, que viria depois, seria a primeira em cores. Mas assim como seu colega Dias Gomes, Lauro César Muniz também sofreu com a censura em “Escalada”. A novela narrava a trajetória e as relações do caixeiro-viajante Antônio Dias em três décadas até a atualidade da época. 

O problema é que Antônio se envolvia com Marina, uma mulher que estava a beira do divórcio, enquanto estava casado com Cândida. A censura classificou o triângulo como uma “discussão estéril que leva à instabilidade conjugal”. Além disso, em certa parte da história, Antônio participava da construção de Brasília, porém o nome do presidente JK, que foi o responsável pela obra, não podia ser citado.

Lauro conta que tentou colocar o nome, a sigla e até mencionar o apelido privado de JK, Nonô, para driblar a censura, mas nada adiantou. A única coisa que ele conseguiu foi ter um personagem assoviando a música “Peixe Vivo”, associada ao ex-presidente.

5. O Casarão (1976)

Um triângulo amoroso também causou problemas para Lauro César Muniz em “O Casarão”, de 1976. Essa novela já é curiosa pois se passava em três fases diferentes ao mesmo tempo, mostrando o amor proibido de Carolina e João Maciel por décadas. 

Quarenta anos antes, Carolina larga João Maciel para continuar casada com Atílio, que ela não amava, mas lhe dava segurança. Sua neta, Lina, serviria de contraponto, pois largaria um casamento fracassado com Estevão para se envolver com Jarbas. Porém a censura não permitiu que o romance se desenrolasse até que ela pedisse o divórcio. 

Ainda falando de Lauro César, sua novela seguinte, “Espelho Mágico”, teve problemas quando Claudia Celeste, acabou entrando no elenco sem que o diretor soubesse que ela era transexual. A censura proibia pessoas trans de aparecerem na TV.

6. Brilhante (1981) e Vale Tudo (1988)

A trama principal de Brilhante, escrita por Gilberto Braga (1981), envolvia uma magnata que queria a todo custo casar seu filho com uma mulher, já que não aceitava o fato dele ser homossexual. 

Ela aborda a mocinha, Luiza, mas ela não aceita e se envolve com o genro da tal ricaça. O problema é que não se podia falar de homossexualidade na TV, por conta da censura. Então, tudo sobre o assunto ficava subentendido. Apenas em uma cena, Luiza menciona “os problemas sexuais de seu filho” e a cena não foi censurada.

Sete anos depois, “Vale Tudo” foi a última novela a sofrer a ação da censura, já no governo de José Sarney. Um casal de lésbicas, Cecília e Laís, vivia juntas e era bem tratado pelos outros personagens. Mas uma cena em que elas falavam abertamente sobre preconceito foi censurada. 

7. Duas Vidas (1977)

Voltando a Janete Clair, outra novela dela que fazia críticas a uma obra da ditadura militar foi “Duas Vidas”, em 1977. Dessa vez, vários moradores do centro do Rio de Janeiro tinham suas vidas mudadas pelas obras do metrô. 

Cenas em que personagens reclamavam da poeira, por exemplo, eram censuradas, pois a obra do governo não podia ser criticada na TV. Além disso, os censores proibiram um romance entre um rapaz jovem e uma mulher mais velha, ambos solteiros.

8. O Bem Amado (1973)

Para terminar nossa lista, essa novela que voltou em 2021 ao GloboPlay e que ganhou um texto só sobre ela aqui no Mega Curioso. A censura implicou com o uso das palavras “coronel” e “capitão”, patentes militares, para falar de personagens que não eram bons. 

Além disso, capítulos em que o personagem Zeca Diabo sofria de bicho de pé foram cortados, já que isso denunciava a falta de saneamento básico. Por isso, Dias Gomes substituiu a doença do personagem por uma gripe.

Em sua novela seguinte, “Saramandaia”, Dias criou uma estratégia muito inteligente: ele sabia que os censores trocavam com frequência e não tinham muito critério. Então, uma cena que havia sido censurada voltava ao roteiro 10 ou 20 capítulos depois — e, muitas vezes, era aprovada na segunda tentativa. 

Atualmente, estamos sem novelas inéditas na TV por conta da pandemia. Mas, quando elas voltarem, os autores poderão escrever o que quiserem, sem censura, e você pode escolher se quer assistir ou não.

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